RLHF: aprenda como funciona e como aplicar

RLHF: o que é, como funciona e como aplicar

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RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback) é uma técnica que aprimora modelos de Inteligência Artificial (IA). Isso usando informações qualitativas diretas de avaliadores humanos para alinhar o comportamento da IA ​​com intenções, preferências e valores humanos.

No detalhe, em vez de depender exclusivamente de conjuntos de dados de respostas "corretas", RLHF usa classificações humanas de respostas geradas por IA. Visando, sobretudo, ensinar o modelo a ser mais útil, honesto e inofensivo.

Estamos falando, portanto, de uma estratégia fundamental para o treinamento de modelos como ChatGPT, entre outros.

Vamos entender isso em profundidade? Leia com atenção os tópicos a seguir:

O que é RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback)

RLHF (Reinforcement Learning from Human Feedback) é uma técnica de aprimoramento de modelos de IA adicionando preferências humanas a eles. Em contraste com as formas convencionais, baseadas apenas em uma matriz automatizada, o RLHF envolve avaliadores humanos para direcionar a IA aos resultados desejáveis.

Em bom português, trata-se do “aprendizado por reforço com base no feedback humano". Um tipo de aprendizado de máquina no qual um agente recebe recompensas ou penalidades dependendo de suas ações enquanto aprende a tomar decisões.

Imagine um cachorro sendo treinado. Neste caso, ele é o “agente".

Quando o cachorro faz algo desejável, ele é recompensado (reforço positivo). Já quando ele não age como se espera, a recompensa lhe é negada. Com o tempo, o cachorro aprende quais comportamentos levam a recompensas.

Em IA, o "agente" é o modelo, que é capacitado para ajustar seu comportamento de forma a maximizar as recompensas cumulativas ao longo do tempo.

Como RLHF funciona na prática

Um dos principais problemas dos modelos de linguagem (LLMs) é atender critérios operacionais: utilidade, clareza, consistência, cumprimento de políticas e redução de saídas inadequadas.

Como esses critérios são difíceis de traduzir em regras, o RLHF transforma preferências humanas em um sinal mensurável de otimização.

O feedback costuma vir como pares escolhido e rejeitado, rankings entre alternativas ou correções pontuais. A partir desse conjunto, treina-se o modelo de recompensa, que estima uma pontuação para cada resposta dado.

Essa pontuação passa a representar, de forma aproximada, o que os avaliadores preferem.

Na etapa de reforço, parte-se de um modelo já ajustado supervisionadamente (ajuste supervisionado) e aplica-se um algoritmo de otimização proximal de política.

Para conter mudanças bruscas, é comum limitar a distância em relação a um modelo de referência. Isso reduz a instabilidade e preserva a fluência. Assim, RLHF descreve um pipeline: coletar preferências, aprender a recompensa e refinar a política.

Ele melhora o alinhamento estatístico, mas não substitui validação factual nem controles em produção. Por isso, exige governança do feedback e auditoria de vieses.

Como surgiu o RLHF

Embora não tenha havido um único indivíduo que inventou o RLHF, o método se desenvolveu a partir do trabalho de vários grupos.

Os trabalhos iniciais foram realizados por pesquisadores da OpenAI, DeepMind e instituições acadêmicas que investigaram a interação entre o aprendizado por reforço e as preferências humanas.

O artigo de 2017 “Deep Reinforcement Learning from Human Preferences (Aprendizado por Reforço Profundo a partir de Preferências Humanas)”, de Paul Christiano e colaboradores, foi um marco na definição da metodologia fundamental.

De lá para cá, contudo, a técnica já passou por muitas melhorias – e segue em evolução.

Por que RLHF importa na prática

O RLHF importa porque transforma julgamento humano em um sinal de treinamento. Ele ajuda modelos de IA a produzir respostas mais úteis e seguras em uso real, onde regras fixas não capturam qualidade, contexto e adequação.

Em IA generativa, especificamente, esse ajuste costuma ser decisivo para a experiência do usuário.

É importante ter em mente que, no aprendizado supervisionado, o modelo replica padrões de um conjunto fixo de exemplos. Já no RLHF, avaliadores comparam saídas e indicam preferências.

Esse feedback passa a orientar melhorias iterativas. Ele aproxima o comportamento do modelo de objetivos humanos e de critérios operacionais definidos.

Na prática, RLHF tende a ser relevante quando o sistema até acerta, mas não entrega uma resposta considerada boa. Ele também é útil quando o que se busca otimizar é subjetivo, como naturalidade, contexto ou tom adequado.

Principais impactos operacionais:

  • Qualidade percebida: melhora utilidade, clareza e consistência entre interações.
  • Aderência a políticas: reduz variação de comportamento em temas sensíveis.
  • Priorização de preferências: explicita critérios de avaliação e padroniza julgamento.
  • Robustez de produto: diminui retrabalho de curadoria e ajustes manuais.
  • Governança: cria trilhas de auditoria do que foi considerado melhor e por quê.
    Além disso, facilita testes A/B e calibração de critérios por público e canal.

Deve-se investir em RLHF quando há alto volume de uso, risco reputacional, respostas com múltiplas soluções aceitáveis e necessidade de padronização.

E, pode pode ser excesso, no caso de tarefas determinísticas, baixo impacto, ou incapacidade de sustentar coleta e revisão contínua de feedback.

→ Leia também:

Quais são os componentes centrais do RLHF

Veja, a seguir, um detalhamento dos elementos-chave do RLHF.

Modelo de recompensa e dados de comparação

O modelo de recompensa traduz julgamentos humanos em uma pontuação numérica.

Ele aprende com dados do tipo escolhido versus rejeitado, ou com rankings entre respostas para o mesmo pedido. Assim, ele aproxima a pergunta operacional: qual resposta é melhor para este caso.

Quanto à qualidade desse componente, ela depende de cobertura e consistência. Dentro disso, se o conjunto de comparação não inclui casos difíceis, o modelo de recompensa vira um otimizador de trivialidades.

Além disso, se os avaliadores usam critérios diferentes, a recompensa aprende ruído. Por isso, critérios e guias de avaliação precisam ser explícitos, versionados e testados.

Coleta de feedback humano e demonstrações

O feedback humano pode assumir três formatos práticos: comparações pareadas, ordenação de múltiplas alternativas e correções exemplares.

Em modelos de linguagem, o mais comum é a comparação pareada. Isso porque ela reduz custo e melhora consistência entre avaliadores.

Esse estágio é de governança, não só anotação. Ele exige definição de escopo, amostragem representativa, treinamento de avaliadores, dupla revisão e métricas de concordância. Também exige segregação de dados por domínio, idioma e sensibilidade, pois as preferências mudam conforme o contexto.

Ajuste supervisionado (SFT) e refinamento

Antes do reforço, aplica-se o ajuste supervisionado, SFT, para ensinar o formato de resposta desejado. Ele melhora a coerência e reduz a chance de o modelo produzir saídas fora de padrão.

Depois, o RLHF refina o comportamento onde o SFT não captura bem critérios subjetivos ou difíceis de especificar por exemplos.

O ponto de atenção é o overfitting de estilo.

Na prática, se o SFT e o feedback privilegiam uma voz única, o modelo perde flexibilidade e passa a responder com fórmulas. Portanto, é preciso mitigar com diversificação de fontes, uso de prompts de validação e medição de regressões por tarefas.

Otimização de políticas com RL (PPO)

Na fase de reforço, o modelo é tratado como uma política que gera respostas.

O algoritmo procura aumentar a recompensa prevista, mas precisa conter deriva. Por isso, práticas comuns incluem um modelo de referência e penalização por divergência, para limitar mudanças bruscas e preservar fluência.

O risco aqui é a Lei de Goodhart: quando a métrica vira alvo, o modelo aprende atalhos para agradar o modelo de recompensa, sem melhorar a utilidade real.

Quanto ao controle, ele passa por avaliação fora do treino, com casos cegos, auditoria de vieses e monitoramento contínuo em produção.

ELEMENTOS-CHAVE DO RLHF

Entrada

Saída

Risco típico

Controle recomendado

Feedback humano

Prompts e respostas candidatas

Preferências e rankings

Inconsistência

Guia, dupla revisão, concordância

Modelo de recompensa

Preferências rotuladas

Pontuação de qualidade

Recompensa enviesada

Amostragem, auditoria, versionamento

SFT

Demonstrações e exemplos

Base obediente a instruções

Uniformização de estilo

Diversidade e testes de regressão

PPO

Política + recompensa

Política refinada

Atalhos e deriva

Referência, validação cega, métricas

Como se dá o fluxo de treinamento RLHF

O RLHF entra depois do pré-treinamento e, em geral, após o ajuste supervisionado. Ele organiza um ciclo de melhoria guiado por preferências humanas.

Na operação, o fluxo exige três checkpoints: criar uma base que siga instruções, aprender uma recompensa a partir de comparações e otimizar o modelo sem causar deriva.

Além disso, critérios, amostragem e registro de decisões precisam ser definidos antes do treino, para reduzir ruído e facilitar auditoria.

Pré-treinamento vs RLHF

O pré-treinamento ensina o modelo a prever texto a partir de grandes bases textuais. Ele entrega competência linguística e conhecimento estatístico, porém não define o que é uma boa resposta para um usuário, um canal ou uma política.

Já o RLHF atua no pós-treinamento e muda o objetivo: em vez de só prever o próximo token, o modelo maximiza uma recompensa que aproxima preferências humanas.

Essa recompensa vem de comparações entre respostas e captura critérios difíceis de codificar, como utilidade e adequação. Isso explica por que um modelo pode ser fluente e ainda falhar em contexto, segurança ou consistência.

No pipeline, geralmente uma política de referência limita mudanças e preserva o que já funciona.

Etapa de SFT: ajuste fino supervisionado

A etapa de SFT, ajuste fino supervisionado, prepara o modelo para seguir instruções e responder em formatos esperados. Nela, usa-se um conjunto de demonstrações, como pares pergunta–resposta e exemplos de recusa quando necessário, para ensinar estrutura e limites.

O SFT reduz respostas erráticas, melhora a aderência a instruções e cria um ponto de partida estável para o reforço. Ainda assim, ele não resolve preferências relativas, como escolher a melhor entre duas respostas plausíveis, nem controla bem trade-offs de concisão versus completude. Por isso, o SFT precisa de validação, testes de regressão e cobertura de casos difíceis.

Fase de RLHF e avaliação

Com o modelo baseado em SFT, coleta-se feedback humano sobre várias respostas para o mesmo pedido, tipicamente por escolha entre opções.

Para aumentar a consistência, é comum usar avaliação e medir concordância. Em seguida, treina-se um modelo de recompensa para estimar a preferência. E, por fim, aplica-se aprendizado por reforço, com frequência via otimização proximal de política (PPO), para atualizar o modelo e aumentar a recompensa prevista, controlando a distância em relação ao modelo de referência.

O estágio crítico é a avaliação: medir preferência em conjuntos cegos, testar regressões por domínio e monitorar Goodhart, quando o modelo aprende a agradar a recompensa sem melhorar a utilidade real.

Em produção, esse é ciclo: fazer amostragem de casos, versionar critérios e acompanhar métricas ao longo do tempo para detectar deriva e ajustar padrões.

Desafios, limitações e vieses no RLHF

É importante saber também que o RLHF carrega limites estruturais.

Ele depende de julgamentos humanos, de um modelo de recompensa imperfeito e de uma etapa de otimização que pode explorar atalhos. Por isso, sem governança, o processo troca um tipo de erro por outro.

Viés

O primeiro risco é viés de avaliador.

As preferências variam por cultura, domínio e objetivo. Até bons guias não eliminam divergência, e pontuações diretas tendem a ser ruidosas, motivo pelo qual rankings e comparações são usados com frequência.

Recompensa enganável

Também a recompensa enganável é um risco.

Se a política aprende a maximizar a pontuação sem melhorar a utilidade, ela pode gerar saídas incoerentes que ainda assim parecem boas para o modelo de recompensa. Penalidades de divergência ajudam, porém não resolvem o problema sozinhas.

Regressão e deriva

O terceiro risco está relacionado a regressão e deriva.

Mudanças no mix de prompts, no produto ou no público alteram o que significa melhor. Basicamente, sem avaliação cega e monitoramento contínuo, o modelo degrada em áreas específicas sem sinal óbvio.

Custos e escalabilidade

Há ainda custo e escalabilidade.

Coletar, treinar e auditar feedback exige rotina, orçamento e responsabilidade sobre dados. Além disso, RLHF não garante factualidade e pode manter saídas nocivas, mesmo após melhorias.

Sinais práticos incluem queda de diversidade, respostas prolixas, recusas excessivas e melhora aparente só em testes internos.

→ Controles mínimos recomendados:

  • amostragem estratificada;
  • medição de concordância entre avaliadores;
  • conjuntos de validação por domínio;
  • e revisões independentes periódicas dos critérios.

RLHF vs RL tradicional

O RLHF e o aprendizado por reforço tradicional (Reinforcement Learning – RL) partem da mesma base: um agente ajusta sua política para maximizar uma recompensa. A diferença é a origem desse sinal.

No RL tradicional, a recompensa costuma ser definida por regras, simulação ou ambiente físico. No RLHF, a recompensa é aprendida a partir de preferências humanas, geralmente por comparações entre respostas.

Isso muda o que se otimiza.

No RL tradicional, o alvo é desempenho objetivo, como tempo, custo, energia ou taxa de sucesso. No RLHF, o alvo é qualidade percebida, adequação e aderência a políticas, que variam por contexto e são difíceis de formalizar.

Na decisão prática:

  • Use RL tradicional quando há métricas claras e ambiente observável.
  • Pratique RLHF quando há múltiplas respostas aceitáveis e a escolha depende de julgamento.
  • Combine os métodos quando o sistema precisa de controle objetivo e, ao mesmo tempo, de alinhamento com usuários.

Em ambos os casos, a validação fora do treino é obrigatória. Sobretudo para evitar otimização de atalhos e regressões, em produção e por domínio.

Aspectos éticos, regulatórios e privacidade no Brasil

Como você viu, o RLHF depende de coleta de feedback e, com frequência, registra prompts, respostas e rótulos. Nesse material, podem aparecer dados pessoais, inclusive dados sensíveis, dependendo do domínio e do canal.

Por isso, ao levar a técnica a cabo, é importante se atentar à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Ela define princípios como finalidade, adequação, necessidade, transparência e segurança para qualquer tratamento de dados, inclusive em atividades de treinamento e avaliação de modelos.

A LGPD também organiza papéis e responsabilidades:

  • Controlador define finalidades e meios.
  • Operador executa o tratamento em nome do controlador.
  • Encarregado atua como canal com titulares e como apoio interno de conformidade, o que influencia contratos, auditoria e gestão de incidentes. Inclui direitos do titular e revisão humana.

Vale ter sempre em mente que, em RLHF, o risco cresce quando o feedback se torna repositório de interações reais. Sendo assim, práticas de privacidade por padrão ganham peso: minimização de dados, segregação de ambientes, controles de acesso, retenção limitada e descarte verificável.

Dentro disso, a rastreabilidade do pipeline, com versionamento de critérios de avaliação e de conjuntos de dados, facilita identificar vieses e regressões. Além de sustentar prestação de contas operacionais.

No plano regulatório, o debate brasileiro sobre Inteligência Artificial segue avançando.

O PL 2.338/2023, por exemplo, merece atenção. Ele trata de desenvolvimento e uso ético e responsável, com referência a direitos e mitigação de vieses. Isto é, quando aprovado, esse projeto de lei deverá elevar exigências de governança e avaliação de risco em sistemas de maior impacto.

FAQ – Perguntas frequentes sobre RLHF

1. RLHF pode ser substituído por DPO?

1. RLHF pode ser substituído por DPO?

Em alguns cenários, sim.

DPO, otimização direta por preferências, treina com pares escolhido e rejeitado sem etapa de aprendizado por reforço, simplificando o pós-treinamento. Em geral, demanda menos ajuste de hiperparâmetros e menos infraestrutura.



2. RLHF pode ser aplicado fora de modelos de linguagem?

Sim. Em agentes de visão computacional e robótica, o feedback humano pode avaliar decisões baseadas em percepção antes da ação.

O ponto crítico é manter a rastreabilidade de estados, os critérios e os dados, com auditoria.



3. RLHF pode usar feedback implícito, como cliques e tempo de leitura?

Pode, como complemento. Esse sinal é enviesado por interface, público e contexto, então precisa de normalização e auditoria.

Em geral, combina-se com amostras rotuladas para calibrar critérios.



4. RLHF: como avaliar a qualidade do modelo de recompensa?

A avaliação costuma começar com acurácia em pares de preferência fora do treino e testes de reranqueamento, verificando se a recompensa seleciona melhores respostas de forma consistente.

Além disso, controles contra viés de verbosidade e validação cega ajudam a evitar otimização aparente que piora a utilidade.



5. RLHF: o que são dados de preferência?

Dados de preferência são registros que indicam, para o mesmo prompt, qual resposta foi considerada melhor do que outra, geralmente por comparação pareada ou ranking.

No RLHF, esses dados alimentam o treinamento do modelo de recompensa, que aprende a prever a opção preferida por avaliadores. Depois, a recompensa estimada passa a orientar a otimização do modelo, aproximando o comportamento dos critérios humanos definidos.



6. RLHF: quantos dados de preferência são necessários para começar?

Não existe um número único, porque depende de domínio, diversidade de prompts e estabilidade dos critérios.

Em referências públicas, há desde dezenas de milhares de comparações, como o conjunto WebGPT com 19.578 comparações, até bases maiores, como um dataset de preferências do tipo TL;DR citado com 92 mil comparações pareadas.



7. RLHF: como lidar com preferências conflitantes e múltiplos objetivos?

Quando há objetivos concorrentes, como utilidade versus segurança, o RLHF tende a exigir critérios explícitos, separação de rótulos por eixo e validação por cenários, para evitar que a política otimize um lado à custa do outro.

Em diversas fontes, a análise de objetivos concorrentes aparece como parte do trabalho de alinhamento por preferência, justamente por afetar calibração e robustez.



 


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